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O olho e a aparência das coisas

O globo ocular é o instrumento óptico mais avançado de que se tem conhecimento. Em uma câmera de aproximadamente 25 milímetros de diâmetro, ele capta as mais sutis variações de luz e cor, além de focar objetos com incrível rapidez e ter uma capacidade distinta de processar imagens em três dimensões.

Naturalmente, o olho foi um dos objetos de estudo de Leonardo Da Vinci, que dedicou boa parte de seus manuscritos a compreender não apenas a forma como as imagens são captadas e processadas pelo olho, mas também a relação da visão com os demais sentidos do ser humano.

Para Da Vinci, a percepção integral da realidade se dava pela atuação conjunta dos cinco sentidos, ministros da alma, que conduziam impulsos sensoriais até o ponto central do cérebro, chamado por ele como sensus communis ou “sede do julgamento” (onde fica localizada a glândula pineal), que fazia a interpretação das sensações e o julgamento dos sentidos:

“A alma aparentemente reside na sede do julgamento, e o julgamento aparentemente reside no lugar chamado sensus communis, onde todos os sentidos encontram-se, e é neste lugar e não em todo o corpo, como muitos já acreditaram, pois se assim fosse, seria necessário que os instrumentos dos sentidos encontrassem-se em um local específico; bastaria para o olho registrar sua percepção na superfície em vez de transmitir a imagem das coisas vistas ao sensus communis por meio de nervos ópticos, pois a alma os teria compreendido na superfície do olho.”

Caveira seccionada indicando o sensus communis (2)

Caveira seccionada indicando o sensus communis (2)

Da mesma forma, ele exemplifica como o sentido do tato transmite suas impressões à sede do julgamento:

“O tato passa pelos tendões perfurados e é transmitido a este mesmo lugar; estes tendões espalham-se com infinitas ramificações até a pele… e carregam impulso e sensação aos membros e, passando entre músculos e tendões, ditam a eles seus movimentos; e estes obedecem e, no ato de obedecer, contraem-se porque o inchaço dos músculos reduz seu comprimento, puxando os nervos junto. Esses nervos são entrelaçados entre os membros e estendem-se às extremidades dos dedos transmitidos ao sensus communis a impressão do que tocam.”

Mas de todos os sentidos, o que mais fascinava Da Vinci era o olho, que ele chamava de chefe e líder de todos os outros:

“O olho é a janela do corpo humano através da qual ele sente seu caminho e desfruta da beleza do mundo. Por causa do olho, a alma aceita ficar em sua prisão física, pois sem ele, tal prisão física é tortura.”

Estudo da captação de imagens pelo olho (3)

Estudo da captação de imagens pelo olho (3)

Hoje sabemos por meio de experimentos científicos, que a imagem das coisas é transmitida a partir da luz refletida pelos objetos, fato constatado pela câmera escura, aparelho óptico que consiste de uma caixa com um orifício por onde passa a luz do ambiente externo para o interno, a partir de onde é reproduzida a imagem captada do exterior de forma invertida para a parede escura interior.

Funcionamento da câmera escura (5)

Funcionamento da câmera escura (4)

Este experimento reproduz a mesma sistemática pela qual o olho humano capta e processa as imagens.

Projeção das imagens dentro do olho (4)

Projeção das imagens dentro do olho (5)

Para Da Vinci, o fato de uma imagem poder ser transmitida de um ambiente para o outro a partir de um orifício, lhe fez chegar à constatação de que tudo está contido em toda parte, ou seja, cada ponto do espaço contém, nele próprio, a representação do todo que o circunda:

“O ar está cheio de um número infinito de imagens das coisas que são distribuídas por ele, e todas elas são representadas em todas, todas em uma, e todas em cada uma. Se dois espelhos forem colocados exatamente de frente um para o outro, o primeiro será refletido no segundo, e o segundo no primeiro. Sendo o primeiro refletido no segundo, carrega a própria imagem com todas as imagens nele refletidas, entre as quais a imagem do segundo espelho; e assim continua, de imagem a imagem, até o infinito, de tal forma que cada espelho tenha um número infinito de espelhos dentro de si, cada um menor que o último, e um dentro do outro. Por este exemplo, fica claramente provado que cada coisa transmite sua imagem a todos os lugares onde ela for visível e, inversamente, esta coisa é capaz de receber todas as imagens das coisas que estão em frente a ela.”

Esta reflexão de Da Vinci evoca o princípio de Conessione (tratado em outro estudo deste blog) como um dos princípios de sua investigação científica de que todas as coisas estão conectadas e associadas entre si.
Em outra passagem, Da Vinci faz uma analogia com outros fenômenos naturais, que da mesma forma também transportam parte de si para o todo:

“O que dirão do almíscar, que mantém uma grande quantidade de sua atmosfera circundante carregada de odor, e que carregada a milhas, permeiam mil milhas com este perfume sem diminuição de si? Ou dirão que o toque do sino pelo badalo, que diariamente enche toda a região campestre com seu som, deve necessariamente consumir este sino?”

Perceber a relação existente entre as coisas e compreendê-las como parte de um todo, nos ajuda a entender que nada tem um fim em si próprio e que para entender de forma íntegra qualquer ideia, temos que ir além do conceito que a define e buscar compreender de que forma ela repercute no meio em que ela se expressa.

“O olho, que é a janela da alma, é o principal orgão por meio do qual o entendimento pode ter a mais completa e magnífica visão das obras da natureza.”

Leonardo Da Vinci
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1 Estudos sobre o cérebro e o olho
Codex Windsor, 1478-1518

2 Caveira seccionada indicando o sensus communis
Codex Windsor, 1478-1518

3 Estudo da captação das imagens pelo olho
Manuscrito D – Biblioteca do Instituto da França

4 Funcionamento da câmera escura
Wikipedia – https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A2mera_escura

5 Projeção das imagens dentro do olho
CERPO Oftalmologia – http://cerpo.com.br/como-funciona-o-olho-humano/

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Discípulo da experiência, pesquisador de diversas ciências e religiões, e grande admirador de Leonardo Da Vinci.

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